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terça-feira, 14 de junho de 2011

FEIXE DE VARAS - pg.7


- Pai....fais pra mim pai...eu quero empinar papagaio...e que sensação!
O pai remexia na bancada das ferramentas, emendava arames, pregava tarraxas imensas em pedaços de madeiras rudes e lascadas, serrava, cortava, nunca media nada, no artesanato de incontáveis sistemas de engenhocas, pra finalmente a menina poder brincar.
Um perfeito marreteiro, e tudo funcionava direito.

E todos se entretinham dias inteiros. Não havia ócio, mas tinha bócio.
Sedentário? Ah sim...dentista já existia, e garganta ficava sem amídalas.
E quem levava as criança nos consurtório era os pai...chi...até hoje a menina se lembra de uma dessas voltas no colo do paipai que zonzeando descia uma escadaria depois de mais essa assepsia na era do clorofórmio.
Nesse tempo de quintais com arruda, hortelã, capim cidreira, comigo ninguém pode, num terreno trezentão, para uma criança, parecia um fazendão...grandeza era realeza...e ainda nos fundos um barracão imenso, com armários, cadeiras, mesas, máquinas de costura,  dedais, tesouras, réguas, giz, carretilhas, carretéis, fitas métricas, lápis, papéis, cadernos, tecidos, retalhos, bastidores, pois o pai, um respeitado funcionário público de promissora carreira em estatal brasileira, além de músico, pescador, atleta também era alfaiate especialista em caseado manual e a mãe do lar e também costureira, rádio de válvula ligado em corrente elétrica escutando O Rei da Voz ou um samba canção de Noel.




Metade de um tempo onde em outro tempo dividíamos preces com  Alziro Zarur pelas ondas curtas da rádio nacional do Rio de Janeiro...a irmã mais velha contrairia núpcias em breve tempo e toda a família se dedicava aos bordados rendados num enxoval de princesa com bordas limpas, alvejadas e alvissareiras, onde os gatos se encostavam em lindas almofadas cobertas com espreguiçadeiras.

Ainda não tinham televisão, telefone e as noites quando esfriavam, fugia à compreensão daquela ingenuidade de menina que inconformada ficava sem explicação para toda a providência que tomava, quando para aquecer a cama gelada, antes, cuidava de repousar a enorme boneca de louça gelada na doce crença de esquentar o que sangue quente não tinha.

A menina e a mocinha dividiam 2 camas num quarto em cujas paredes a irmã forrava de flâmulas coloridas e a penteadeira só no quarto da veinha. Até que os dias de um tempo em que noites a menina dormir não conseguia, pois a irmã se derretia em lágrimas com um choro triste, cortante, sofrido que ela não compreendia.
Foi preciso passar muitas décadas para que a menina associasse o que naquele tempo tinha acontecido.
                                                                -7-

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